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Eu amo; ela gosta

Agora são 23h24. Alguns minutos a mais e eu já posso dizer que escrevi um texto para ela na madrugada. Ela é tudo o que as confusões são: inconstantes, pouco afetivas e um eterno para-raios dos próprios excessos. Eu gosto dela. Já ela nem sabe porque insisto em usar camisa jeans e meias coloridas. Na verdade, ela nem deve saber que uso meias coloridas. Eu vivo pensando nela. Já ela nem sequer diz um “gosto de você” de emergência. Eu já pesquisei todas as possíveis receitas de que ela possa gostar, mesmo que envolvam berinjela, banana-caturra e palmito pupunha. Já ela nem ao menos deixaria seu gosto-verdade-absoluta para comer algo diferente comigo. Eu já entreguei meu mundo. Já ela ainda está decidindo se mereço Cubatão ou Petrópolis.

A verdade é que eu não conheço o que há por trás dela. Não conheço seus medos, seus traumas, suas histórias, suas vontades. Eu insisto pelas reticências, ela me mune de pontos finais. Eu insisto na conversa olho no olho, mas, para ela, olho no olho somente no brinde. Não sei se ela gosta de homens que vão à academia todos os dias, que correm pela manhã e que ainda guardam potes de ovos com batata-doce no banco de trás do carro. Não sei se ela gosta de homens que escutam, com o porta-malas do carro aberto, música alta em frente ao mar, com refrãos que, sem dó, rimam amor com calor. Não sei se ela gosta de homens que não a colocam parede, não a fazem ficar com as pernas bambas ou não a deixam ser a safada que eu sei que ela é.

Quando ela não me faz um mal repentino, me faz um bem danado. Se eu já pensei em dizer adeus? Todo santo dia. Se eu já pensei em dizer “vem cá, deixa de ser besta e fica comigo”? Duas vezes, todo santo dia. Não sei se é seu olhar maduro ou sua cabeça de criança que me faz ficar, vai saber… Acontece que ela virou meu mundo de cabeça para baixo, e quem disse que eu não queria que ele ficasse assim? Eu também tenho as minhas confusões, mas nas dela ninguém mexe, ninguém ajuda, ninguém discorda. É dela. O mundo é dela, as vontades são dela, os horários, as perguntas, as verdades são todas dela, até as vogais dss txt s tds dl.

Ela sabe que depois de um dia cansativo, ela é a minha paz. Depois de um sexo de tirar a cama e o coração do lugar, ela é meu melhor lençol. Ela sabe disso, pois nunca hesito em dizer o que sinto. Mas, quando preciso das suas palavras, ela ri, desconversa, foge, se enfia numa toca que, infelizmente, só cabe um. Não sei quanto tempo ela quer perder, quantas preocupações quer colecionar, nem quantos beijos quer desperdiçar por achar que não está vivendo o amor que tanto idealiza. Ela perde tempo demais pensando, sofrendo, dando voz às muitas verdades pequenas de tão absolutas. Mas eu, como todo idiota, insisto mais um pouco, fico ali, por birra e paixão, num redemoinho de uma história que, certamente, quem morre ao final sou eu.

Tempos atrás, enchi a boca para dizer que ela era toda Califórnia. Hoje, pensando melhor, acredito que eu tenha me equivocado; ela é toda Arizona: um deserto cheio de liberdade, mas com poucas opções; aceitá-la à sua maneira ou fugir para as colinas. Se prefiro colinas ou deserto, ainda não sei. Se até o Djavan diz que amar é um deserto e seus temores, quem sou eu para discordar? Mas estaria mentindo caso dissesse que não me pergunto todo dia se meu lugar não é nas colinas…

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