O que fazer se estamos entre dois amores Esta foto é sua?

O que fazer se estamos entre dois amores

Olha, o texto que eu planejava escrever semana passada, e que adiei para essa depois do contato de um leitor que me fez escrever outro texto, fica adiado de novo. É que ontem outra leitora me procurou para contar a sua história, buscando algum auxílio.

Ela me contou estar passando por uma situação infelizmente comum: envolver-se com duas pessoas ao mesmo tempo e ser incapaz de se decidir por uma delas. Em geral, uma delas é um amor do passado que retornou, e que descobrimos ainda amar, e a outra, é um amor mais recente. Mas outras variações podem ocorrer.

As leitoras mais novas devem ter visto essa situação na Saga Crepúsculo, e há muitos outros exemplos na ficção daquilo que chamamos de triângulo amoroso. Um dos mais famosos é o que está no romance Anna Karenina, do escritor russo Liev Tolstoi, e que recentemente ganhou uma versão para o cinema, com Keira Knightley no papel principal. Na história, Anna está dividida entre dois homens, ambos chamados Alexei.

Para começar a conversa com Tolstoi, perguntamos a ele: “é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo”?

Tolstoi tem a resposta, quando sua personagem Anna diz que, “assim como existe uma mente diferente para cada cabeça, certamente há um tipo de amor diferente para cada coração”. E o amor entre duas pessoas é formado por dois corações, o que torna o número de amores possíveis ainda maiores. Portanto, às vezes somos capazes de amar duas pessoas ao mesmo tempo, de formas diferentes.

No caso de Anna, temos um triângulo bem complicado, perfeito para aprendermos um bocado. Para começar, ela estava dividida entre seu marido e um jovem militar. Então, o primeiro conflito de Anna é em relação aos deveres com sua família.

Sempre é assim quando nos achamos entre dois amores. Mesmo quando não estamos casados, é comum que nossos familiares, nossos pais e nossos amigos tenham preferência por uma das pessoas com quem estamos envolvidos. E aí podemos escutar coisas como “essa pessoa te faz sofrer, por isso prefiro o outro”. Porém, o segredo nesses momentos é simplesmente não ouvir esses conselhos. Parece estranho dizer isso, mas uma coisa que Tolstoi nos diz em seu romance é que “a lei que rege o amor não pode ser descoberta pela razão.” Portanto, o entendimento dos outros não consegue alcançar a natureza daquilo que estamos sentindo.

A verdade é que ninguém pode viver e amar por nós, por mais que essa pessoa se preocupe com nosso bem-estar. Se por acaso decidirmos ouvir os conselhos de nossos amigos e familiares, isso será apenas uma desculpa para que possamos fazer aquilo que nosso coração no fundo, já estava decidido a fazer.

É exatamente isso, por mais estranho que pareça: desde o início do triângulo amoroso já fizemos a escolha entre uma das duas pessoas, embora não tenhamos ainda consciência disso. Ao eliminarmos da cabeça as opiniões que os outros têm sobre o nosso dilema, e também as preocupações sobre as consequências da escolha, poderemos ser honestos com nós próprios, e assim descobriremos que nosso coração já desde o início tomou uma decisão.

Isso porque o fato de que somos capazes de amar duas pessoas ao mesmo tempo não significa que se trata do mesmo tipo de amor e, ainda por cima, da mesma intensidade de amor. Amamos duas pessoas, mas de formas diferentes e com intensidades diferentes. Uma delas não amamos tanto, ou simplesmente não amamos, ou amamos com um amor fraternal, ou só sentimos no fundo tesão.

Por exemplo, na história de Anna, os laços dela com seu marido consistem apenas num afeto familiar que ela nutre por um bom homem. Ele não faz arder nela a mesma chama que lastreia seu coração quando pensa no jovem que realmente ama. Sem perceber, ela já fez sua escolha. Se terá coragem de reconhecer isso ou não, apenas os que lerem o livro até o final descobrirão.

O importante é que, feita a escolha, devemos ser absolutamente honestos com aquela pessoa da qual temos que nos despedir. Como disse Tolstoi em seu romance, “qualquer coisa é melhor do que a mentira”. Devemos cortar os laços totalmente com aquele que nosso coração deixou de escolher, sem manter qualquer contato com tal pessoa por um bom tempo, ao menos até as feridas dela cicatrizarem. É preciso ser um pouco duro, até pelo bem dessa pessoa, para que cicatrize logo sua ferida. “Ser mau”, diz a personagem Anna, “mas jamais mentiroso ou enganador”.

E também é fundamental estar consciente de que, não importa qual escolha façamos, sempre ganharemos uma coisa e perderemos outra. Seja qual for nossa decisão, sempre haverá um sacrifício, pois é impossível ter o melhor de dois mundos. Portanto, nossa decisão em questões do coração jamais deve guiar-se por “prós” e “contras”. O coração não conhece “prós” e “contras”, não mede vantagens e desvantagens em suas escolhas, o único sistema métrico que ele conhece é o da intensidade da paixão.

Como ensina Tolstoi, o segredo para sairmos de um triângulo amoroso é o mesmo segredo para todas as situações de nossa vida. “O que deve ser feito?”, Tolstoi pergunta e ele mesmo responde: “não há outra solução senão a solução universal que a vida dá a todas as questões, mesmo as mais complexas e insolúveis. A resposta é: você precisa viver o momento presente, ou seja, deixar-se levar”.

(Nota: as citações de Anna Karenina que utilizei no texto são traduzidas por mim da versão em inglês da obra)

Comentários